Padrão do sono pode ser fator de risco para doenças cardiovasculares?

Desde que começamos a estudar cardiologia aprendemos que eventos cardiovasculares ocorrem mais frequentemente pela manhã, sugerindo que o ciclo circadiano influencia na da doença cardiovascular. Quase todas as funções cardiovasculares são reguladas pelo padrão circadiano, como pressão arterial (PA), frequência cardíaca, tônus vascular e funções endoteliais. A privação do sono está ligada a aumento elevação da PA, alterações no perfil lipídico e resistência à insulina, fatores preditores para doenças cardiovasculares (DCV).  Estudos prévios têm mostrado que a alteração do ciclo circadiano pode estar associado a aumento do risco cardiovascular. Interessante também notar que alguns trabalhos já mostravam que a alteração no padrão de sono-vigília pode ter efeito acumulativo.

Como o objetivo de estudar essa relação, foi publicado no JACC um estudo  envolvendo 1992 pacientes, sem DCV, em 6 centros de pesquisa nos Estados Unidos. Todos os pacientes realizaram 7 dias de actigrafia de pulso, uma noite a polissonografia domiciliar e responderam questionário sobre sono.

Em relação ao tempo de sono, os pacientes foram avaliados em relação à média da variabilidade da duração do sono em 7 dias, e à média do tempo de início para o sono nos 7 dias. Como assim? Os pacientes que tem sono mais regular dormem praticamente no mesmo horário. Os irregulares, dormem em horários diferentes, mais “variáveis” e o tempo dessa variabilidade é que foi avaliado.

Dos pacientes avaliados, 39.5% tinham variabilidade da duração do sono > 90 min e 25.6% tinham início do tempo de sono >90 min. Em 4.6 anos, 111 eventos cardiovasculares ocorreram. Depois dos ajustes estatísticos, o risco de eventos aumentou progressivamente com o aumento da variabilidade da duração do sono. Quando analisada como variável contínua, a cada hora da variabilidade na duração do sono foi associada com aumento de 36% no risco cardiovascular.

Similar associação foi observada entre variabilidade do início de tempo do sono e eventos cardiovasculares, com elevação de 18% do risco cardiovascular para cada hora de início de sono reduzido.

Assim, o estudo mostrou que pacientes com maiores irregularidade na duração ou tempo de sono tinham duas vezes mais risco de desenvolver DCV  em 4.9 anos comparados com pacientes que tinham padrão de sono mais regular, sugerindo ainda, após  múltiplas análises, que isso deveria ser considerado como um novo e independente fator de risco cardiovascular. Segundo os autores, o ponto de corte para se considerar elevado risco cardiovascular ainda é incerto e necessita de mais estudos.

Os autores concluem que elevada e constante variações na duração e tempo do sono são ambos associados a elevação do risco cardiovascular e consideram a irregularidade no padrão de sono como um novo fator de risco cardiovascular e sugerem ser necessário avaliar a saúde do sono como estratégia de redução de risco cardiovascular. Por tratar-se de estudo observacional, há importante limitações nos achados. Ainda assim, levanta mais uma vez a questão sobre a importância do sono na saúde cardiovascular.

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